sábado, 7 de janeiro de 2017

Lana Del Rey - Born To Die





                                              Oração do Tempo


"Tudo o que lhe peço, Tempo, é que me salve do meu coração. Dessa entrega absurda de ir até o outro e me deixar sem mim. O que lhe peço, Tempo, é o caminho do meio. Aprender a receber antes de me entregar. Ver além. Peço que me devolva a mim mesma. Que eu me reconheça e me acolha. Me aqueça em meus buracos escuros e definitivamente me toque. Que eu saiba cuidar somente do que me cabe. E deixe ir. E deixe vir. Natural, inteira e suavemente. Que a vida me encontre distraída, sem a ânsia de buscar o que não sei. O que não vale. O que não é. O que lhe peço, Tempo, é a aceitação do tempo e da vida como ela é. Sei que ela me aguarda plena e legítima. Mostre a ela o caminho até mim. Enquanto isso, me adormeça em paz até que a verdade me alcance como um beijo. Tire de mim essa ânsia de ser feliz, inverta a ordem das coisas e assopre no ouvido da alegria o momento de me capturar sem volta. Que eu me aquiete na paz do merecimento, sem dar um passo ou um pio. Que apenas contemple. Que eu resista à tentação de correr para o que ainda não está pronto. Que eu me apronte para a surpresa de um dia simples. Que eu acorde como quem nasce além".


Cris Guerra

Imagem :  https://br.pinterest.com/pin/501869952201527426/

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

                                                 O Pássaro Cativo




                                Armas, num galho de árvore, o alçapão;
                                E, em breve, uma avezinha descuidada,
                                Batendo as asas cai na escravidão.
                                Dás-lhe então, por esplêndida morada,
                                A gaiola dourada;

                                Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos, e tudo:
                                Porque é que, tendo tudo, há de ficar
                                O passarinho mudo,

                                Arrepiado e triste, sem cantar?
                                É que, crença, os pássaros não falam.
                                Só gorjeando a sua dor exalam,
                                Sem que os homens os possam entender;
                                Se os pássaros falassem,

                                Talvez os teus ouvidos escutassem
                                Este cativo pássaro dizer:
                                “Não quero o teu alpiste!

                                Gosto mais do alimento que procuro
                                Na mata livre em que a voar me viste;
                                Tenho água fresca num recanto escuro
                                Da selva em que nasci;


                               Da mata entre os verdores,
                               Tenho frutos e flores,
                               Sem precisar de ti!

                               Não quero a tua esplêndida gaiola!
                               Pois nenhuma riqueza me consola
                               De haver perdido aquilo que perdi ...
                               Prefiro o ninho humilde, construído
                               De folhas secas, plácido e escondido
                               Entre os galhos das árvores amigas ...
                               Solta-me ao vento e ao sol!

                               Com que direito à escravidão me obrigas?
                               Quero saudar as pompas do arrebol!
                               Quero, ao cair da tarde,

                               Entoar minhas tristíssimas cantigas!
                               Por que me prendes? Solta-me covarde!
                               Deus me deu por gaiola a imensidade:
                               Não me roubes a minha liberdade ...
                               Quero voar!   Voar! ... “

                               Estas coisas o pássaro diria,
                               Se pudesse falar.

                               E a tua alma, criança, tremeria,
                               Vendo tanta aflição:

                               E a tua mão tremendo, lhe abriria
                               A porta da prisão ...


                                                  Olavo Bilac

                  Poema publicado  em Poesias Infantis - http://pt.poesia.wikia.com/wiki/poesias_infantis

                             Imagem in Almanaque Cultural Brasileiro - Via  pesquisa  Google em 05.01.2017.



Humor

                                                                                             In "Quebrando Tabu"

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

              Mesmo que o céu não exista


"Nós somos prisioneiros do futuro e de nossos sonhos: de tanto esperar amanhãs que cantem, perdemos o único caminho real, que é o de hoje. No entanto é preciso viver e lutar: partir para o assalto ao céu, mesmo que esse céu não exista. Precisamos inventar uma sabedoria do nosso tempo."

                                                                                   André Conte-Sponville
                                                                                  

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

                                     QUERIDO AMANHÃ

Sim, dezembro chegou e já vai sem tardar. O mês das finalizações, das limpezas e das preparações para a novidade que se avizinha. Suposta data para reconciliações, reencontros, afetividades suaves, religiosidades empoeiradas e ânimos calmos; o simbólico mês da passagem para um suposto ano novo. Algumas notas sobre essa sedução em relação ao amanhã.
             O modo de contar o passar do tempo não é universal. Diferentes povos e religiões ajustam seus compassos a partir de diferentes calendários. No calendário gregoriano, estamos no ano de 2016. No calendário chinês, com seus ciclos de 12 anos, estamos em 4713. No calendário judaico, em 5776. No islâmico, em 1437.
Seja como for, partindo de qualquer mecanismo: solar, lunar e/ou histórico, o dia seguinte é esse tempo que chega/passa, limita, potencializa e/ou contamina nossos sonhos, ideias, planejamentos, forças pra fazer o novo, olhares para vislumbrar o amanhã mais sereno.
Mário Quintana trouxe poesia sobre esse olhar: “a vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa. Quando se vê, já são seis horas! Quando se vê, já é sexta-feira! Quando se vê, já é natal ...  Quando se vê, já terminou o ano ...  Quando se vê perdemos o amor da nossa vida. Quando se vê passaram 50 anos! Agora é tarde demais para ser reprovado...”.
Em nome do amanhã, deitamos nossas intranquilidades à espera do novo sol-guia para nossas tempestades. Alguns até vão além, trabalham com o depois-de-amanhã, afinal: “não deixe para amanhã o que você pode fazer depois de amanhã”. Risos...
Em nome da ideia, a gente promete parar de fumar, dormindo com um cigarro picado na orelha. A gente promete esquecer daquela (e), deixando a (o) amada (o) como fotografia na tela de proteção do celular. A gente promete não fazer dívida, gastando o último crédito do cartão na fila da Riachuelo. A gente promete usar camisinha, quando até sem cueca se anda   deixando   o banco do passageiro do carro levemente deitado.

Planos e desejos honestos também: que todas as feridas possam ser curadas; as obras mal construídas, abandonadas; os prazeres, intensamente vividos; os saberes, plenamente absorvidos; as lágrimas, inteiramente escorridas.
E assim o tempo passa, trazendo o dia seguinte, que pode acabar sendo o hoje contaminado pelos devaneios reincidentes do amanhã. Dito isso, tenho que concordar com a afirmação supostamente atribuída a Charles Chaplin: "o importante é não fazer do amanhã o sinônimo de nunca".
Guimarães Rosa até nos deu a pista/fôlego: “a vida é assim: esquenta, esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta, o que ela quer da   gente é coragem”. Coragem para enfrentar os quilômetros adiante e convencer os guardiões da entrada; bravura pra  ir lapidando essa tal liberdade do amanhã, essa amplitude do “passarinho voando com gaiola e tudo”.
Afinal, resgatando Svetlana Alexievich, em discurso por ocasião do prêmio Nobel de literatura de 2015: “a liberdade não é um feriado, como antes imaginávamos. Ela é uma estrada. Uma longa estrada”.
Sigo refletindo daqui, soando pretensamente falso com a ideia final desse post, já que cito um texto bíblico, do famoso e pouco seguido Sermão da Montanha: “não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado” (Mt 6-34).
Intensidade para o hoje e para os amanhãs vindouros. Um brinde!

CÉSAR GANDHI
Brasiliense por resistência. Pai de uma menina-flor. Mestrando em Ciências Sociais no ICS/CEPPAC/UnB. Considera o mundo um lugar rochoso, mas não se cansa de ir derramando água quente por onde passa, na tentativa de torná-lo mais maleável.
(In Obvious magazine)


segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Baudelaire

                                         "Preparei o meu olhar perverso,
                              masculino, para uma moça bonita
                              que vinha vindo.
                              Quando ela estava mais perto,
                              um cisco entrou no meu olho.
                              Era uma santa! "

                                                                                            Charles Baudelaire