quinta-feira, 17 de agosto de 2017




                                             Exausto

                         Eu quero uma licença de dormir,
                          perdão pra descansar horas a fio,
                          sem ao menos sonhar
                          a leve palha de um pequeno sonho.
                          Quero o que antes da vida
                          foi o profundo sono das espécies,
                          a graça de um estado.
                          Semente.
                          Muito mais que raízes.

                                                                              Adélia Prado



                                     (in "Bagagem" São Paulo: Ed.Siciliano, 1993)

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

                                                           Identificação

                                      Eu me diluí na alma imprecisa das coisas.
                                      Rolei com a Terra pela órbita do infinito,
                                      Jorrei das nuvens com a torrente das chuvas
                                      E percorri o espaço no sopro do vento;
                                      Marulhei na corrente inquietadora dos rios,
                                      Penetrei a mudez milenária das montanhas;
                                      Desci ao vácuo silencioso dos abismos;
                                      Circulei na seiva das plantas,
                                      Ardi no olhar das feras,
                                      Palpitei nas asas das pombas;
                                      Fui sublime n’alma do homem bom
                                      E desprezível no coração do mesquinho;
                                      Inebriei-me da alegria do venturoso;
                                      E deslizei dolorosamente na lágrima do infeliz.

                                      Nada encontrei mais doloroso,
                                      Mais eloquente,
                                      Mais glorioso
                                      Do que a tragédia cotidiana
                                      Escrita em cada vida humana.


                                                                                              Helena Kolody

segunda-feira, 31 de julho de 2017



 O dia em que eu mordi Jesus Cristo

 Ruth Rocha

Eu estava numa escola onde não tinha aula de religião.
E todos os meus amigos já tinham feito a primeira comunhão, menos eu.
Então me deu uma vontade danada de fazer primeira comunhão. Eu nem sabia direito o que era isso, mas falei pra minha mãe e pro meu pai e eles acharam que até podia ser bom, que eu andava muito lavada e coisa e tal, e me arranjaram uma tal de aula de catecismo, que era na igreja.
Aí eu não gostei muito, que todo sábado de manhã, enquanto meus amigos ficavam brincando na rua, eu tinha que ir na tal aula. Eu ia, né, e aí eu arranjei uns amigos e tinha uma menina boazinha que vinha me buscar que ela também ia na aula e a gente ia pra igreja rindo de tudo que a gente via.
E na aula a gente aprendia uma porção de coisas, e tinha uma que eu achava engraçada e que era uma rezinha bem curtinha, que se chamava jaculatória. Eu achava esse nome meio feio, sei lá, me lembrava alguma coisa esquisita...
E o padre uma vez mostrou pra gente um livrão, que tinha uma figura com o inferno e uma porção de gente se danando lá dentro.
E a gente tinha que aprender a rezar a Ave-Maria e o Padre-Nosso e o Creindeuspadre.
E tinha um tal de ato de contrição, e uma tal de ladainha, que a gente morria de rir.
E aí a gente começou a aprender como é que se confessava, que tinha que dizer todos os pecados pro padre e eu perguntava pro padre o que era pecado e ele parece que nem sabia direito.
Quando eu chegava em casa e contava essas coisas, meu pai e minha mãe meio que achavam graça e eu comecei a achar que esse negócio de primeira comunhão era meio engraçado...
E aí o padre começou a explicar pra gente como era a comunhão e que a gente ia comer o corpo de Cristo, que na hora da missa aquela bolachinha chamada hóstia vira o corpo de Cristo.
Eu estava muito animada era com o meu vestido novo, que era branco e era cheio de babados e rendas, e na cabeça eu ia botar um véu, que nem a minha avó na missa, só que o meu era branco e mais parecia uma roupa de noiva.
E eu ganhei um livro de missa lindo, todo de madrepérola, e um terço que eu nem sabia usar, minha mãe disse que antigamente as pessoas rezavam terço, mas que agora não se usava mais...
E o dia da comunhão estava chegando e a minha mãe preparou um lanche, ia ter chocolate e bolo e uma porção de coisas, que a gente ia voltar bem depressa da igreja, que quem ia comungar não ia poder comer antes da missa. E era só eu que ia comungar.
E eu perguntei pra minha mãe por que é que ela nunca comungava e ela disse que um dia desses ela ia.
E eu perguntei por que é que o meu pai nunca ia na igreja e ele disse que um dia desses ele ia.
E aí chegou a véspera da minha comunhão e eu tive de ir confessar. E eu morri de medo de errar o tal ato de contrição e na hora que eu fui confessar mandaram eu ficar de um lado do confessionário, que é uma casinha com uma janelinha de grade de cada lado e um lugar de cada lado para ajoelhar, e o padre fica lá dentro.
Eu ajoelhei onde me mandaram e aí eu ouvia tudo que a menina do outro lado estava dizendo pro padre e era que ela tinha desobedecido a mãe dela e o padre mandou rezar vinte Ave-Marias.
Eu fiquei meio que achando que era pecado ouvir os pecados dos outros, mas como ninguém tinha falado nada pra mim eu fiquei quieta, e quando o padre veio pro meu lado eu fui logo falando o ato de contrição: eu pecador me confesso e o resto que vem depois.
E eu contei os meus pecados, que pra falar a verdade eu nem achava que eram pecados, mas foi assim que me ensinaram. E aí o padre disse uma coisa que eu não entendi e eu perguntei “o quê” e o padre disse "vai tirar o cera do ouvido”. E eu disse “posso ir embora?” e ele disse “vai, vai logo e reze vinte Ave-Marias”. E eu achei que ele nem tinha escutado o que eu disse e que ele que precisava tirar a cera do ouvido.
No dia seguinte eu botei o meu vestido branco e eu não comi nadinha, nem bebi água, e nem escovei os dentes, de medo de engolir uma aguinha.
E eu estava morrendo de medo, que todo mundo tinha dito que se a gente mordesse a hóstia saía sangue.
A igreja cheirava a lírio, que é um cheiro que até hoje eu acho enjoado.
As meninas e os meninos que iam fazer primeira comunhão ficavam lá na frente, nos primeiros bancos e davam pra gente uma vela pra segurar.
O padre foi rezando uma missa comprida que não acabava mais e às tantas chegou a hora da gente comungar e as meninas foram saindo dos bancos e foram indo lá pra frente e ajoelhando num degrau que tem perto de uma grade.
E o padre veio vindo com uma taça dourada na mão e ele tirava a hóstia lá de dentro e ia dando uma por uma para cada menina e menino.
Aí chegou a minha vez e abri bem a boca e fechei os olhos que nem eu vi as outras crianças fazerem e o padre botou a hóstia na minha língua. Eu não sabia o que fazer, que morder não podia e a minha boca estava sequinha e a hóstia grudou no céu da boca eu empurrava com a língua e não desgrudava e enquanto isso eu tinha que levantar e voltar pro meu lugar que já tinha gente atrás de mim querendo ajoelhar.
E eu nem aprestei atenção e tropecei no vestido da Carminha e levei o maior tombo da minha vida.
É claro que eu fiquei morrendo de vergonha e eu levantei e nem prestei atenção se eu tinha machucado o joelho. O que estava me preocupando mesmo é que eu tinha dado a maior mordida na hóstia.
Eu estava sentindo tudo que é gosto na boca, que devia de estar saindo sangue da hóstia, mas não tinha coragem de pegar pra olhar.
Aí eu pensei assim: “se eu não olhar se saiu sangue agora, nunca mais na minha vida eu vou saber se é verdade essa história”.
Aí eu meti o dedo na boca e tirei um pedaço da hóstia, meio amassado, meio molhado. E estava branquinho que nem tinha entrado.

E foi assim que eu aprendi que quando as pessoas falam pra gente coisas que parecem besteira não é pra acreditar, que tem muita gente besta neste mundo!

Ruth Rocha – Historinhas Malcriadas . Série: Toda Criança do Mundo   Editora: Salamandra

Imagem :  Kika Esteves - WordPress.com KEgirl-1stcommunion KEboy-1stcommunion …

quarta-feira, 26 de julho de 2017

A importância do outro




“Tendemos a nos orgulhar do que talvez devesse nos envergonhar: de viver numa época ‘pós-ideo­lógica’ ou ‘pós-utópica’, de não nos preocuparmos com uma visão coerente de boa sociedade e de ter trocado a preocupação com o bem público pela liberdade de buscar a satisfação pessoal. E, no entanto, se pararmos para pensar por que essa busca da felicidade o mais das vezes não consegue produzir os resultados que esperamos (...), não iremos longe sem trazer de volta do exílio ideias como a do bem público, da boa sociedade, da igualdade e assim por diante – ideias que não fazem sentido se não cuidadas e cultivadas na companhia de outro”

(BAUMAN, Z. Em busca da política (p.16).. RJ: Zahar,2003).


segunda-feira, 10 de julho de 2017

                                                                 
                                                                    Orfandade

                                                        Meu Deus,
                                                        me dá cinco anos.
                                                        Me dá um pé de fedegoso com formiga preta,
                                                        me dá um Natal e sua véspera
                                                        o ressonar das pessoas no quartinho.
                                                        Me dá a negrinha Fia pra eu brincar,
                                                        me dá uma noite pra eu dormir com minha mãe.
                                                        Me dá minha mãe, alegria sã e medo remediável,
                                                        me dá a mão, me cura de ser grande,
                                                        ó meu Deus, meu pai,
                                                        meu pai.


                                                                      Adélia Prado 



                                                                     
                                                                           Imagem: Google Indian .jpg -fotos



quinta-feira, 6 de julho de 2017

Octávio Paz


“O Arco e a Lira” 




A poesia é conhecimento, salvação, poder, abandono. Operação capaz de transformar o mundo, a atividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual, é um método de libertação interior. A poesia revela este mundo; cria outro. Pão dos eleitos; alimento maldito. Isola; une. Convite à viagem; regresso à terra natal. Inspiração, respiração, exercício muscular. Súplica ao vazio, diálogo com a ausência, é alimentada pelo tédio, pela angústia e pelo desespero. Oração, litania, epifania, presença. Exorcismo, conjuro, magia. Sublimação, compensação, condensação do inconsciente. Expressão histórica de raças, nações, classes. Nega a história: em seu seio resolvem-se todos os conflitos objetivos e o homem adquire, afinal, a consciência de ser algo mais que passagem. Experiência, sentimento, emoção, intuição, pensamento não-dirigido. Filha do acaso; fruto do cálculo. Arte de falar em forma superior; linguagem primitiva. Obediência às regras; criação de outras. Imitação dos antigos, cópia do real, cópia de uma cópia da Idéia. Loucura, êxtase, logos. Regresso à infância, coito, nostalgia do paraíso, do inferno, do limbo. Jogo, trabalho, atividade ascética. Confissão. Experiência inata. Visão, música, símbolo. Analogia: o poema é um caracol onde ressoa a música do mundo, e métricas e rimas são apenas correspondências, ecos, da harmonia universal. Ensinamento, moral, exemplo, revelação, dança, diálogo, monólogo. Voz do povo, língua dos escolhidos, palavra do solitário. Pura e impura, sagrada e maldita, popular c minoritária, coletiva e pessoal, nua e vestida, falada, pintada, escrita, ostenta todas as faces, embora exista quem afirme que não tem nenhuma: o poema é uma máscara que oculta o vazio, bela prova da supérflua grandeza de toda obra humana!

Como não reconhecer em cada uma dessas fórmulas o poeta que as justifica e que, ao encarná-las, lhes dá vida? Expressões de algo vivido e padecido, não temos outro remédio senão aderirmos a elas - condenados a abandonar a primeira pela segunda e esta pela seguinte. Sua própria autenticidade mostra que a experiência que justifica cada um desses conceitos os transcende. Será preciso, portanto, interrogar os testemunhos diretos da experiência poética. A unidade da poesia só pode ser apreendida através do trato desnudo com o poema.

Um poema é uma obra. A poesia se polariza, se congrega c se isola num produto humano: quadro, canção, tragédia. O poético é poesia em estado amorfo; o poema é criação, poesia que se ergue. Só no poema a poesia se recolhe e se revela plenamente. É lícito perguntar ao poema pelo ser da poesia, se deixamos de concebê-lo como uma forma capaz de se encher com qualquer conteúdo. O poema não é uma forma literária, mas o lugar de encontro entre a poesia e o homem.

O poema é um organismo verbal que contém, suscita ou emite poesia. Forma e substância são a mesma coisa. Mal desviamos os olhos do poético para fixá-los no poema, aparece-nos a multiplicidade de formas que assume esse ser que pensávamos único. Como nos apoderarmos da poesia se cada poema se mostra como algo diferente e irredutível?

A forma mais alta da prosa é o discurso, no sentido estrito dessa palavra. No discurso as palavras aspiram a se constituir em significado unívoco. Esse trabalho implica reflexão e análise. Ao mesmo tempo introduz um ideal inatingível, já que a palavra se nega a ser mero conceito, significado sem outra coisa mais. Cada palavra – à parte suas propriedades físicas - encerra uma pluralidade de sentidos. Assim, a atividade do prosador se exerce contra a natureza própria da palavra.

A palavra, finalmente em liberdade, mostra todas as suas entranhas, todos os seus sentidos e alusões, como um fruto maduro ou como um foguete no momento de explodir no céu. O poeta põe em liberdade sua matéria. O prosador aprisiona-a.

O poema, sem deixar de ser palavra e história, transcende a história. Sob condição de examinar com mais atenção em que consiste esse ultrapassar a história, podemos concluir que a plural idade de poemas não nega, antes afirma, a unidade da poesia.

Cada poema é único. Em cada obra lateja, com maior ou menor intensidade, toda a poesia. Portanto, a leitura de um só poema nos revelará, com maior certeza do que qualquer investigação histórica ou filológica, o que é a poesia. Mas a experiência do poema - sua recriação através da leitura ou da recitação - também ostenta uma desconcertante pluralidade e heterogenia. Quase sempre a leitura se apresenta como a revelação de algo alheio à poesia propriamente dita.

Para alguns o poema é a experiência do abandono; para outros, do rigor. Cada leitor procura algo no poema. E não é insólito que o encontre: já o trazia dentro de si.

Todos já fomos crianças. Todos já amamos. O amor é um estado de reunião e participação aberto aos homens: no ato amoroso a consciência é como a onda que, vencido o obstáculo, antes de se desmanchar, ergue-se numa plenitude na qual tudo - forma e movimento, impulso para cima e força da gravidade - alcança um equilíbrio sem apoio, sustentado em si mesmo. Quietude do movimento. E do mesmo modo que através de um corpo amado entrevemos uma vida mais plena, mais vida que a vida, através do poema vislumbramos o raio fixo da poesia. Esse instante contém todos os instantes. Sem deixar de fluir, o tempo se detém, repleto de si.

Objeto magnético, secreto lugar de encontro de forças contrárias, graças ao poema podemos chegar à experiência poética. O poema é uma possibilidade aberta a todos os homens, qualquer que seja seu temperamento, seu ânimo ou sua disposição. No entanto, o poema não é senão isto: possibilidade, algo que só se anima ao contacto dc um leitor ou de um ouvinte. Há uma característica comum a todos os poemas, sem a qual nunca seriam poesia: a participação. Cada vez que o leitor revive realmente o poema, atinge um estado que podemos, na verdade, chamar de poético. A experiência pode adotar esta ou aquela forma, mas é sempre um ir além de si, um romper os muros temporais, para ser outro. Tal como a criação poética, a experiência do poema se dá na história, é história e, ao mesmo tempo, nega a história.

O poema é mediação: graças a ele, o tempo original, pai dos tempos, encarna-se num momento. A sucessão se converte em presente puro, manancial que se alimenta a si próprio e transmuta o homem. A leitura do poema mostra grande semelhança com a criação poética. O poeta cria imagens, poemas; o poema faz do leitor imagem, poesia.

E ainda guardamos viva a sensação de alguns minutos de tal maneira plenos que se transformaram em tempo transbordado, maré alta que rompeu os diques da sucessão temporal. Pois o poema é via de acesso ao tempo puro, imersão nas águas originais da existência. A poesia não é nada senão tempo, ritmo perpetuamente criador.


O Arco e a Lira” de Octavio Paz. Tradução de Olga Savary. Ed. Nova Fronteira, RJ, 1982. (Coleção Logos)

Imagem: https://www.google.com.br/searchq=imagem+de+poesia+Octavio+Paz

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Unidos


Unidos

                           Seu  sorriso,
                           seu abraço.
                           Unidos somos então
                           duas partes sem divisão.
                           Na completude
                           e amplitude de nós dois,
                           sempre juntos,
                           durante , agora e depois ...
                           Encaixados geometricamente,
                           perfeitamente vivemos,
                           no amor,na companhia,
                           sob  a tolerância necessária
                           do dia a dia.


                                              Aureliano
                      

                            Imagem: Vladstudio_puzzles_ fotos

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Hás de ver...


                                     
                                             No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas
                                             que o vento não conseguiu levar:
                                             um estribilho antigo
                                             um carinho no momento preciso
                                             o folhear de um livro de poemas
                                             o cheiro que tinha um dia o próprio vento…
                                                                               
                                                                                                                 Mário Quintana

domingo, 25 de junho de 2017


                                        
                                      
                            


                                        A  menina
                                       com seu bambolê
                                       não sabe por que
                                       flutua no ar.
                                       Seu  corpo  
                                       suave e passivo
                                       aceita  inerte o movimento.
                                       Pássaros frágeis
                                       sustentam o seu levitar.
                                       Seus cabelos eriçam
                                       como  num mergulho no ar.
                                       Ela nem imagina
                                           que está a voar.
                               
                                                                                      Aureliano


                                         Imagem : Suspension of Disbelief  - Duy Huynh

sábado, 13 de maio de 2017

Mãe

                                               
                          MÃE...

                   São três letras apenas,
                   As desse nome bendito:
                   Três letrinhas, nada mais...
                   E nelas cabe o infinito
                   E palavra tão pequena - confessam mesmo os ateus -
                   És do tamanho do céu
                   E apenas menor do que Deus!

                                                   Mario Quintana
                                                 
Imagem ; Paula Modersohn-Becker
                                                      
                                    MÃE

                     Mãe que adormente este viver dorido.
                     E me vele esta noite de tal frio,
                     E com as mãos piedosas até o fio
                     Do meu pobre existir, meio partido...

                     Que me leve consigo, adormecido,
                     Ao passar pelo sítio mais sombrio...
                     Me banhe e lave a alma lá no rio
                     Da clara luz do seu olhar querido...

                     Eu dava o meu orgulho de homem – dava
                     Minha estéril ciência, sem receio,
                     E em débil criancinha me tornava,

                     Descuidada, feliz, dócil também,
                     Se eu pudesse dormir sobre o teu seio,
                     Se tu fosses, querida, a minha mãe! 


                                                   Antero de Quental

Imagem ; Paula Modersohn-Becker

                                Minha Mãe

                        Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
                       Tenho medo da vida, minha mãe.
                       Canta a doce cantiga que cantavas
                       Quando eu corria doido ao teu regaço
                       Com medo dos fantasmas do telhado.
                       Nina o meu sono cheio de inquietude
                       Batendo de levinho no meu braço
                       Que estou com muito medo, minha mãe.
                       Repousa a luz amiga dos teus olhos
                       Nos meus olhos sem luz e sem repouso
                       Dize à dor que me espera eternamente
                       Para ir embora.  Expulsa a angústia imensa
                       Do meu ser que não quer e que não pode
                       Dá-me um beijo na fonte dolorida
                       Que ela arde de febre, minha mãe.

                       Aninha-me em teu colo como outrora
                       Dize-me bem baixo assim: — Filho, não temas
                       Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
                       Dorme. Os que de há muito te esperavam
                       Cansados já se foram para longe.
                       Perto de ti está tua mãezinha
                       Teu irmão. que o estudo adormeceu
                       Tuas irmãs pisando de levinho
                       Para não despertar o sono teu.
                       Dorme, meu filho, dorme no meu peito
                       Sonha a felicidade. Velo eu

                      Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
                      Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
                      Afugenta este espaço que me prende
                      Afugenta o infinito que me chama
                      Que eu estou com muito medo, minha mãe.

                              Vinicius de Moraes
Imagem : Brian Kershisnik


“Teus filhos não são teus filhos
São filhos e filhas da vida, anelando por si própria
Vem através de ti, mas não de ti E embora estejam contigo, a ti não pertencem.
Podes dar-lhes amor mas não teus pensamentos,Pois que eles tem seus pensamentos próprios.
Podes abrigar seus corpos, mas não suas almas Pois que suas almas residem na casa do amanhã, Que não podes visitar se quer em sonhos. Podes esforçar-te por te parecer com eles, mas não procureis fazei-los semelhante a ti, Pois a vida não recua, não se retarda no ontem.
Tú és o arco do qual teus filhos, como flechas vivas, são disparados… Que a tua inclinação na mão do Arqueiro seja para alegria.”

                                                                          Khalil Gibran 


Imagens: Cassandra Barney




                              Pequeno Poema

                          “Quando eu nasci,
                          ficou tudo como estava.
                          Nem homens cortaram veias,
                          nem o Sol escureceu,
                          nem houve estrelas a mais…
                          Somente,
                          esquecida das dores,
                          a minha Mãe sorriu e agradeceu.
                          Quando eu nasci,
                          não houve nada de novo
                          senão eu.
                          As nuvens não se espantaram,
                          não enlouqueceu ninguém…
                          Pra que o dia fosse enorme,
                          bastava
                          toda a ternura que olhava
                          nos olhos de minha Mãe…”
                                     
                                                          Sebastião da Gama

Imagem ; Paula Modersohn-Becker



sábado, 25 de fevereiro de 2017

Dois Poemas de Mia Couto

                                                         FALTA DE REZA

                                                    Por insuficiência de reza,
                                                    por falsidade de crença
                                                    meu anjo me culpou
                                                    e vaticinou eterna penitência.

                                                    Mas não ajoelho
                                                    nem peço desculpa.
                                                    Não quero um deus
                                                    que vigie os vivos
                                                    e peça contas aos mortos.

                                                    Um deus amigo
                                                    que me chame por tu
                                                    e que espere por mim
                                                    para um copo de riso e abraços:
                                                    esse é o deus que eu quero ter.

                                                    Um deus
                                                    que nem precise de existir.



                                                               A COISA


                                                      O silêncio é o modo
                                                      como o marido habita a casa.

                                                      Vencida a porta, ao final do dia,
                                                      o homem assume porte e posses.

                                                      A mesa é onde os seus cotovelos
                                                      derramam milenares cansaços.

                                                      Nesse cotovelório
                                                      vai trocando vida por idade.

                                                      Partilha a medonhez dos bichos:
                                                      medo do silêncio,
                                                      mais pavor ainda das palavras.

                                                      Para a mulher,
                                                      Porém, ele não é senão um menino
                                                      no aguardo de um agrado.

                                                      Em redor do silêncio
                                                      ela rodopia, sem voz, sem cheiro, sem rosto.

                                                      Em solidão,
                                                      o homem come,
                                                      merecedor do que lhe é servido.

                                                      Depois,
                                                      bebe como se fosse bebido,
                                                      tragado pelo vazio dos desertos.

                                                      Dono do seu despovoado,
                                                      então, ele a agride, com ferocidade de bicho.

                                                      A mulher se estilhaça no soalho,
                                                      sombrio retrato da parede tombado.

                                                       No leito,
                                                       já servido o marido,
                                                       as lágrimas vão colando os seus fragmentos.

                                                       E a esposa volta a ser coisa.

                                                                                                MIA  COUTO


Fonte : Poemas escolhidos / Mia Couto ; apresentação José Castello  -   1ª- ed. -   São Paulo : Companhia das Letras, 2016.