segunda-feira, 10 de julho de 2017

                                                                 
                                                                    Orfandade

                                                        Meu Deus,
                                                        me dá cinco anos.
                                                        Me dá um pé de fedegoso com formiga preta,
                                                        me dá um Natal e sua véspera
                                                        o ressonar das pessoas no quartinho.
                                                        Me dá a negrinha Fia pra eu brincar,
                                                        me dá uma noite pra eu dormir com minha mãe.
                                                        Me dá minha mãe, alegria sã e medo remediável,
                                                        me dá a mão, me cura de ser grande,
                                                        ó meu Deus, meu pai,
                                                        meu pai.


                                                                      Adélia Prado 



                                                                     
                                                                           Imagem: Google Indian .jpg -fotos



quinta-feira, 6 de julho de 2017

Octávio Paz


“O Arco e a Lira” 




A poesia é conhecimento, salvação, poder, abandono. Operação capaz de transformar o mundo, a atividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual, é um método de libertação interior. A poesia revela este mundo; cria outro. Pão dos eleitos; alimento maldito. Isola; une. Convite à viagem; regresso à terra natal. Inspiração, respiração, exercício muscular. Súplica ao vazio, diálogo com a ausência, é alimentada pelo tédio, pela angústia e pelo desespero. Oração, litania, epifania, presença. Exorcismo, conjuro, magia. Sublimação, compensação, condensação do inconsciente. Expressão histórica de raças, nações, classes. Nega a história: em seu seio resolvem-se todos os conflitos objetivos e o homem adquire, afinal, a consciência de ser algo mais que passagem. Experiência, sentimento, emoção, intuição, pensamento não-dirigido. Filha do acaso; fruto do cálculo. Arte de falar em forma superior; linguagem primitiva. Obediência às regras; criação de outras. Imitação dos antigos, cópia do real, cópia de uma cópia da Idéia. Loucura, êxtase, logos. Regresso à infância, coito, nostalgia do paraíso, do inferno, do limbo. Jogo, trabalho, atividade ascética. Confissão. Experiência inata. Visão, música, símbolo. Analogia: o poema é um caracol onde ressoa a música do mundo, e métricas e rimas são apenas correspondências, ecos, da harmonia universal. Ensinamento, moral, exemplo, revelação, dança, diálogo, monólogo. Voz do povo, língua dos escolhidos, palavra do solitário. Pura e impura, sagrada e maldita, popular c minoritária, coletiva e pessoal, nua e vestida, falada, pintada, escrita, ostenta todas as faces, embora exista quem afirme que não tem nenhuma: o poema é uma máscara que oculta o vazio, bela prova da supérflua grandeza de toda obra humana!

Como não reconhecer em cada uma dessas fórmulas o poeta que as justifica e que, ao encarná-las, lhes dá vida? Expressões de algo vivido e padecido, não temos outro remédio senão aderirmos a elas - condenados a abandonar a primeira pela segunda e esta pela seguinte. Sua própria autenticidade mostra que a experiência que justifica cada um desses conceitos os transcende. Será preciso, portanto, interrogar os testemunhos diretos da experiência poética. A unidade da poesia só pode ser apreendida através do trato desnudo com o poema.

Um poema é uma obra. A poesia se polariza, se congrega c se isola num produto humano: quadro, canção, tragédia. O poético é poesia em estado amorfo; o poema é criação, poesia que se ergue. Só no poema a poesia se recolhe e se revela plenamente. É lícito perguntar ao poema pelo ser da poesia, se deixamos de concebê-lo como uma forma capaz de se encher com qualquer conteúdo. O poema não é uma forma literária, mas o lugar de encontro entre a poesia e o homem.

O poema é um organismo verbal que contém, suscita ou emite poesia. Forma e substância são a mesma coisa. Mal desviamos os olhos do poético para fixá-los no poema, aparece-nos a multiplicidade de formas que assume esse ser que pensávamos único. Como nos apoderarmos da poesia se cada poema se mostra como algo diferente e irredutível?

A forma mais alta da prosa é o discurso, no sentido estrito dessa palavra. No discurso as palavras aspiram a se constituir em significado unívoco. Esse trabalho implica reflexão e análise. Ao mesmo tempo introduz um ideal inatingível, já que a palavra se nega a ser mero conceito, significado sem outra coisa mais. Cada palavra – à parte suas propriedades físicas - encerra uma pluralidade de sentidos. Assim, a atividade do prosador se exerce contra a natureza própria da palavra.

A palavra, finalmente em liberdade, mostra todas as suas entranhas, todos os seus sentidos e alusões, como um fruto maduro ou como um foguete no momento de explodir no céu. O poeta põe em liberdade sua matéria. O prosador aprisiona-a.

O poema, sem deixar de ser palavra e história, transcende a história. Sob condição de examinar com mais atenção em que consiste esse ultrapassar a história, podemos concluir que a plural idade de poemas não nega, antes afirma, a unidade da poesia.

Cada poema é único. Em cada obra lateja, com maior ou menor intensidade, toda a poesia. Portanto, a leitura de um só poema nos revelará, com maior certeza do que qualquer investigação histórica ou filológica, o que é a poesia. Mas a experiência do poema - sua recriação através da leitura ou da recitação - também ostenta uma desconcertante pluralidade e heterogenia. Quase sempre a leitura se apresenta como a revelação de algo alheio à poesia propriamente dita.

Para alguns o poema é a experiência do abandono; para outros, do rigor. Cada leitor procura algo no poema. E não é insólito que o encontre: já o trazia dentro de si.

Todos já fomos crianças. Todos já amamos. O amor é um estado de reunião e participação aberto aos homens: no ato amoroso a consciência é como a onda que, vencido o obstáculo, antes de se desmanchar, ergue-se numa plenitude na qual tudo - forma e movimento, impulso para cima e força da gravidade - alcança um equilíbrio sem apoio, sustentado em si mesmo. Quietude do movimento. E do mesmo modo que através de um corpo amado entrevemos uma vida mais plena, mais vida que a vida, através do poema vislumbramos o raio fixo da poesia. Esse instante contém todos os instantes. Sem deixar de fluir, o tempo se detém, repleto de si.

Objeto magnético, secreto lugar de encontro de forças contrárias, graças ao poema podemos chegar à experiência poética. O poema é uma possibilidade aberta a todos os homens, qualquer que seja seu temperamento, seu ânimo ou sua disposição. No entanto, o poema não é senão isto: possibilidade, algo que só se anima ao contacto dc um leitor ou de um ouvinte. Há uma característica comum a todos os poemas, sem a qual nunca seriam poesia: a participação. Cada vez que o leitor revive realmente o poema, atinge um estado que podemos, na verdade, chamar de poético. A experiência pode adotar esta ou aquela forma, mas é sempre um ir além de si, um romper os muros temporais, para ser outro. Tal como a criação poética, a experiência do poema se dá na história, é história e, ao mesmo tempo, nega a história.

O poema é mediação: graças a ele, o tempo original, pai dos tempos, encarna-se num momento. A sucessão se converte em presente puro, manancial que se alimenta a si próprio e transmuta o homem. A leitura do poema mostra grande semelhança com a criação poética. O poeta cria imagens, poemas; o poema faz do leitor imagem, poesia.

E ainda guardamos viva a sensação de alguns minutos de tal maneira plenos que se transformaram em tempo transbordado, maré alta que rompeu os diques da sucessão temporal. Pois o poema é via de acesso ao tempo puro, imersão nas águas originais da existência. A poesia não é nada senão tempo, ritmo perpetuamente criador.


O Arco e a Lira” de Octavio Paz. Tradução de Olga Savary. Ed. Nova Fronteira, RJ, 1982. (Coleção Logos)

Imagem: https://www.google.com.br/searchq=imagem+de+poesia+Octavio+Paz

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Unidos


Unidos

                           Seu  sorriso,
                           seu abraço.
                           Unidos somos então
                           duas partes sem divisão.
                           Na completude
                           e amplitude de nós dois,
                           sempre juntos,
                           durante , agora e depois ...
                           Encaixados geometricamente,
                           perfeitamente vivemos,
                           no amor,na companhia,
                           sob  a tolerância necessária
                           do dia a dia.


                                              Aureliano
                      

                            Imagem: Vladstudio_puzzles_ fotos

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Hás de ver...


                                     
                                             No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas
                                             que o vento não conseguiu levar:
                                             um estribilho antigo
                                             um carinho no momento preciso
                                             o folhear de um livro de poemas
                                             o cheiro que tinha um dia o próprio vento…
                                                                               
                                                                                                                 Mário Quintana

domingo, 25 de junho de 2017


                                        
                                      
                            


                                        A  menina
                                       com seu bambolê
                                       não sabe por que
                                       flutua no ar.
                                       Seu  corpo  
                                       suave e passivo
                                       aceita  inerte o movimento.
                                       Pássaros frágeis
                                       sustentam o seu levitar.
                                       Seus cabelos eriçam
                                       como  num mergulho no ar.
                                       Ela nem imagina
                                           que está a voar.
                               
                                                                                      Aureliano


                                         Imagem : Suspension of Disbelief  - Duy Huynh

sábado, 13 de maio de 2017

Mãe

                                               
                          MÃE...

                   São três letras apenas,
                   As desse nome bendito:
                   Três letrinhas, nada mais...
                   E nelas cabe o infinito
                   E palavra tão pequena - confessam mesmo os ateus -
                   És do tamanho do céu
                   E apenas menor do que Deus!

                                                   Mario Quintana
                                                 
Imagem ; Paula Modersohn-Becker
                                                      
                                    MÃE

                     Mãe que adormente este viver dorido.
                     E me vele esta noite de tal frio,
                     E com as mãos piedosas até o fio
                     Do meu pobre existir, meio partido...

                     Que me leve consigo, adormecido,
                     Ao passar pelo sítio mais sombrio...
                     Me banhe e lave a alma lá no rio
                     Da clara luz do seu olhar querido...

                     Eu dava o meu orgulho de homem – dava
                     Minha estéril ciência, sem receio,
                     E em débil criancinha me tornava,

                     Descuidada, feliz, dócil também,
                     Se eu pudesse dormir sobre o teu seio,
                     Se tu fosses, querida, a minha mãe! 


                                                   Antero de Quental

Imagem ; Paula Modersohn-Becker

                                Minha Mãe

                        Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
                       Tenho medo da vida, minha mãe.
                       Canta a doce cantiga que cantavas
                       Quando eu corria doido ao teu regaço
                       Com medo dos fantasmas do telhado.
                       Nina o meu sono cheio de inquietude
                       Batendo de levinho no meu braço
                       Que estou com muito medo, minha mãe.
                       Repousa a luz amiga dos teus olhos
                       Nos meus olhos sem luz e sem repouso
                       Dize à dor que me espera eternamente
                       Para ir embora.  Expulsa a angústia imensa
                       Do meu ser que não quer e que não pode
                       Dá-me um beijo na fonte dolorida
                       Que ela arde de febre, minha mãe.

                       Aninha-me em teu colo como outrora
                       Dize-me bem baixo assim: — Filho, não temas
                       Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
                       Dorme. Os que de há muito te esperavam
                       Cansados já se foram para longe.
                       Perto de ti está tua mãezinha
                       Teu irmão. que o estudo adormeceu
                       Tuas irmãs pisando de levinho
                       Para não despertar o sono teu.
                       Dorme, meu filho, dorme no meu peito
                       Sonha a felicidade. Velo eu

                      Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
                      Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
                      Afugenta este espaço que me prende
                      Afugenta o infinito que me chama
                      Que eu estou com muito medo, minha mãe.

                              Vinicius de Moraes
Imagem : Brian Kershisnik


“Teus filhos não são teus filhos
São filhos e filhas da vida, anelando por si própria
Vem através de ti, mas não de ti E embora estejam contigo, a ti não pertencem.
Podes dar-lhes amor mas não teus pensamentos,Pois que eles tem seus pensamentos próprios.
Podes abrigar seus corpos, mas não suas almas Pois que suas almas residem na casa do amanhã, Que não podes visitar se quer em sonhos. Podes esforçar-te por te parecer com eles, mas não procureis fazei-los semelhante a ti, Pois a vida não recua, não se retarda no ontem.
Tú és o arco do qual teus filhos, como flechas vivas, são disparados… Que a tua inclinação na mão do Arqueiro seja para alegria.”

                                                                          Khalil Gibran 


Imagens: Cassandra Barney




                              Pequeno Poema

                          “Quando eu nasci,
                          ficou tudo como estava.
                          Nem homens cortaram veias,
                          nem o Sol escureceu,
                          nem houve estrelas a mais…
                          Somente,
                          esquecida das dores,
                          a minha Mãe sorriu e agradeceu.
                          Quando eu nasci,
                          não houve nada de novo
                          senão eu.
                          As nuvens não se espantaram,
                          não enlouqueceu ninguém…
                          Pra que o dia fosse enorme,
                          bastava
                          toda a ternura que olhava
                          nos olhos de minha Mãe…”
                                     
                                                          Sebastião da Gama

Imagem ; Paula Modersohn-Becker



sábado, 25 de fevereiro de 2017

Dois Poemas de Mia Couto

                                                         FALTA DE REZA

                                                    Por insuficiência de reza,
                                                    por falsidade de crença
                                                    meu anjo me culpou
                                                    e vaticinou eterna penitência.

                                                    Mas não ajoelho
                                                    nem peço desculpa.
                                                    Não quero um deus
                                                    que vigie os vivos
                                                    e peça contas aos mortos.

                                                    Um deus amigo
                                                    que me chame por tu
                                                    e que espere por mim
                                                    para um copo de riso e abraços:
                                                    esse é o deus que eu quero ter.

                                                    Um deus
                                                    que nem precise de existir.



                                                               A COISA


                                                      O silêncio é o modo
                                                      como o marido habita a casa.

                                                      Vencida a porta, ao final do dia,
                                                      o homem assume porte e posses.

                                                      A mesa é onde os seus cotovelos
                                                      derramam milenares cansaços.

                                                      Nesse cotovelório
                                                      vai trocando vida por idade.

                                                      Partilha a medonhez dos bichos:
                                                      medo do silêncio,
                                                      mais pavor ainda das palavras.

                                                      Para a mulher,
                                                      Porém, ele não é senão um menino
                                                      no aguardo de um agrado.

                                                      Em redor do silêncio
                                                      ela rodopia, sem voz, sem cheiro, sem rosto.

                                                      Em solidão,
                                                      o homem come,
                                                      merecedor do que lhe é servido.

                                                      Depois,
                                                      bebe como se fosse bebido,
                                                      tragado pelo vazio dos desertos.

                                                      Dono do seu despovoado,
                                                      então, ele a agride, com ferocidade de bicho.

                                                      A mulher se estilhaça no soalho,
                                                      sombrio retrato da parede tombado.

                                                       No leito,
                                                       já servido o marido,
                                                       as lágrimas vão colando os seus fragmentos.

                                                       E a esposa volta a ser coisa.

                                                                                                MIA  COUTO


Fonte : Poemas escolhidos / Mia Couto ; apresentação José Castello  -   1ª- ed. -   São Paulo : Companhia das Letras, 2016.


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017


                          Oportunidade

             Ofendem-me os que dizem que não voltarei,
             Porque bati à tua porta e não te encontrei;
             Porque todas as noites  permaneço à tua porta,
             E ordeno que despertes e te ergas para lutar e vencer.
             Não chores pelas preciosas chances que passaram;
             Não chores pela idade de ouro que se foi;
             Todas as  noites queimo o registro do dia;
             Ao erguer do sol, todas as almas nascem de novo.
             Ri como um menino aos esplendores que passaram.
             Às alegrias que se esvaíram, sê surdo e mudo.
             O meu julgamento sela o passado que morreu,

             Mas nunca prende um momento ainda por vir.
             Mesmo afundado na lama, não torças as mãos nem chores.
             Dou o meu braço a todos os que dizem: “Eu posso!”
             Nenhum pária algum dia caiu tão baixo
             Que não pudesse erguer-se e ser um homem novamente!
             Lastimas a mocidade Perdida?
             Hesitas em desfechar o golpe merecido?
             Volta-te então dos arquivos apagados do passado,
             E encontrarás as brancas páginas do futuro.
             Choras por uma pessoa amada? Liberta-te da magia;
             És um pecador? O pecado tem perdão;
             Cada manhã te dá asas com que voar do inferno,
             Cada noite uma estrela para te guiar aos céus.

                                                   Walter Malone,  In  “Opportunity”


   Fonte: A Lei do triunfo Napoleon Hill,  36º Edição Ed.José Olympio  ,Pág. 608 e 609
  
                      Imagem   http://www.alinecarvalhotri.com/2015/12/12/eu-acredito-no-impossivel

Ser feliz





Existe somente uma idade para a gente ser feliz, somente uma época na vida  de cada pessoa em que é possível sonhar e fazer planos e ter energia bastante para realizá-los a despeito de todas as dificuldades e obstáculos. Uma só idade para a gente se encantar com a vida e viver apaixonadamente e desfrutar tudo com toda intensidade sem medo nem culpa de sentir prazer. Fase dourada em que a gente pode criar e recriar a vida à nossa própria imagem e semelhança e vestir-se com todas as cores e experimentar todos os sabores e entregar-se a todos os amores sem preconceito nem pudor. Tempo de entusiasmo e coragem em que todo desafio é mais um convite à luta que a gente enfrenta com toda disposição de tentar algo NOVO, de NOVO e de NOVO, e quantas vezes for preciso. Essa idade tão fugaz na vida da gente chama-se PRESENTE e tem a duração do instante que passa.

                                                                                                                 Mário Quintana


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